Leituras #1
Livros para tornar-se grande
Essa pequena lista de leitura conduz-nos a uma reconstrução pessoal por meio de uma visão específica de homem, conectada tanto às suas raízes tradicionais quanto às circunstâncias atuais. Se as antigas formas de ver o mundo tornaram-se insuficientes para nós, também é verdade que as novas formas de compreensão da pessoa são em larga medida deletérias, ácidas demais para um projeto de construção pessoal, úteis somente para a destruição das falsidades e das aparências enganosas - papel importante que a ironia pós-moderna nos trouxe, e que guardamos conosco sabendo que não podemos nos desvencilhar completamente delas.
Nota-se que as resenhas deste texto não pretendem esgotar o conteúdo contido nas obras, mas trazer luz a um ângulo específico donde se pode tirar o que procuramos para nós.
O Valor Divino do Humano - José Urteaga
Na gênese do ocidente sempre esteve presente a concepção cristã de “morte ao mundo” - isto é, de que “nosso reino não é deste mundo” e, portanto, que as pulsões de vida que nos cercam nos distraem e são parte da natureza pecaminosa do homem. Seria injusto afirmar, como o faz Nietzsche, que a Igreja pretendia expurgar do homem sua vitalidade - mas, sem dúvida, o caminho ascético monástico tradicional baseado na mortificação e no isolamento foi alimentando também o caminho espiritual do laicato (o fiel que não é padre, nem monge) desde ao menos a Idade Média, e, quando nossa civilização foi descobrindo e desvendando as grandezas e belezas do mundo, do homem e da técnica, uma dicotomia entre o caminho cristão e o caminho materialista foi se abrindo vagarosamente na nossa mentalidade, até resultar na divinização do homem que se construiu nos últimos séculos.
José Urteaga vem para acabar com essa divisão, unindo o espiritual ao material, o Homem a Deus. Naturalmente, não seria possível fazer essa união sem que houvesse uma tradição espiritual e filosófica que lhe desse as ferramentas linguísticas adequadas para isso. O perigo de se cair em um satanismo à lá Thelema corresponde, no vetor contrário, ao perigo de cair em um gnosticismo.
Esse livro nos fornece uma compreensão do que é o materialismo cristão na formação pessoal. O homem, aqui, é entendido como divino, e o mundo como igualmente divino também. Uma perspectiva que pode ser difícil, mas logo se abre para nós como a forma possível de um cristianismo que não se opõe infantilmente aos nossos tempos, mas os governa.
Gaia Ciência - F. Nietzsche
O fenômeno do rapaz que lê Nietzsche e depois se converte é muito comum, e muito engraçado. Mas não absurdo, nem incoerente. Qualquer choque diante dele é prova de uma péssima compreensão do autor - e não seria sequer preciso ler a interpretação de Heidegger para o entender.
A dinamite do ocidente nos conduz, nesse livro denso e grande, a uma fluidez poética que nos leva a compreender, por meio de imagens e símbolos, do que se trata a união entre poeta, cavaleiro e dançarino. Tomando uma imagem do ocidente primitivo - os provençais, sobre os quais pela primeira vez se ouviu falar de uma Gaia Ciência - ele quer nos dar um novo projeto de homem, alegre, feliz até a ironização, mas igualmente capaz, forte, e senhor de todas as coisas.
A consciência da possibilidade do amor - um amor pelas coisas, pela vida, pelo mundo - é a principal marca desse livro grandioso. De fato, enquanto nosso pensador se dedica a advogar pela alegria desinteressada como portadora de poder criativo, a simbólica tarológica nos mostra desde muito tempo, no seu primeiro arcano - o Mágico -, que a destreza desinteressada, a falta dessa seriedade pesarosa diante das coisas, é que nos dá poder de manipular a matéria.
Não há, hoje, como construir um projeto pessoal sem Nietzsche. Quem quer que o faça, está se enganando - ou será inadequado, ou terá marcas do filósofo sem que o educador tenha consciência disso.
Evangelho de São João - Capítulo 21
Quem é São Pedro? Essa é a principal pergunta que, nesse capítulo, é brilhantemente respondida. Parece evidente que ele é o “personagem principal” do capítulo: é quem leva os homens a pescar, quem se atira ao mar para ir ao encontro de Jesus, e a quem Jesus inquire sobre o amor.
A imagem de Pedro pulando sobre as águas nos interessa aqui, e é alvo da mais profunda meditação. Episódio repleto de significados, cheio de símbolos, mas aqui nos remete a um outro episódio, dessa vez literário: quando Cássio desafia Júlio César a pular no rio Tibre durante uma tempestade. Do mesmo modo que Pedro, César age por uma impulsividade instintiva, jogando-se ao mar em ousadia imprudente, sem pensar duas vezes.
A coragem de comprometer-se sem necessidade de que fala Vinícius de Moraes em “O Haver” está em Pedro, em César e no homem nietzscheano. Parece tolo pensar que um gesto como esse tenha natureza racional, intelectiva; que qualquer um desses homens tenha feito um cálculo, tenham buscado ser prudentes em seus atos. São todos loucos: e, Pedro, louco pelo que vale a pena ser louco.
Eneida, Livro VI
É nesse livro do grande poema épico que Virgílio estabelece a frase: mens agitat molem - “a mente agita a matéria”. Essa afirmação, que parece preconizar uma divisão entre mente e matéria, ou entre alma e corpo, na verdade advoga pela união fundamental entre os dois, e, principalmente, pela capacidade da primeira mover a segunda.
Princípio da atividade do homem, função criadora ou co-criadora, em tudo quanto o homem faz há espírito, há divindade: assim deve ser visto o trabalho. Fernando Pessoa utiliza um anagrama dessa sentença no título de seu livro: MEN(s)-AG(itat)-(mol)EM. Com isso, reconhece a natureza divina das expedições portuguesas, a capacidade de transformação e modificação e transformação do mundo como um todo no grande projeto da civilização portuguesa.
Nesse sentido, todos nós, homens, somos parte de um grande projeto de agitação e transformação da matéria. Inserido em um projeto maior, como colaborador, ou liderando o nosso próprio projeto, como protagonista, a perspectiva do trabalho como uma modificação da ordem das coisas nos reinsere na perspectiva antropológica da qual nunca devemos sair.
Caminho - São Josemaria Escrivá
Ninguém compreendeu o fundamento espiritual do homem contemporâneo - somente Josemaria. Quase exclusivamente Josemaria. Todas as demais interpretações, todo desenvolvimento pessoal possível, está inserido nas suas bases espirituais. Não existe outro caminho.
Um guia de orientação pessoal, não cai no anacronismo ou na autossuficiência de si de Julius Évola, nos enganos do “caminho mágico”, mas coordena o sentido das nossas ações meticulosamente, em mais de 900 “pontos”, abarcando uma ampla variedade de temas da vida contemporânea. Qual é o sentido da “utilidade”, elemento mais importante no atual modelo de convivência do mundo? O que isso significa? E como ser grande: como ser melhor, como fazer coisas grandes, como não voar como ave de capoeira, quando podemos subir como as águias?
É somente em Caminho que se pode ter um vislumbre do que significa, na prática, o caminho do novo homem que cavalga o tigre, movendo a matéria conforme queira, em sua alegria materialista e cristã, alegre e desprendido de todas as coisas.

